Ao pôr-do-sol a terra é mais vermelha,
E mais garrida a acácia nos parece.
No mar há rubros de ouro. E anoitece
Como no céu ressalta uma centelha.
O Sol vai serra adentro. E acontece
Que o chão de mil tons de ocre se avermelha.
Foi Deus que a um justo viu fervor na prece: Africa Negra ao Éden assemelha!
À solta,andam na praia os namorados
Na babugem das ondas, descuidados...
E os búzios calam desmandos de amor.
Há luz junto do mar que inda alumia.
Chega à savana o cheiro a maresia,
Porque há feitiço ao sul do Equador!
In POESIA QUE A MÁGOA TECE, 2007.
Maria Francília Pinheiro
Que saudades eu tenho, África minha! Da cor do mar, do Sol a arder na pele, Da chuva repentina que adivinha A sede que ao chão faz lanho a cinzel...
Ao sol, quando na rua vou sozinha, Não esqueço o cajueiro e a sombra dele: Dos cheiros e sabores eu guardo o mel Da manga e da papaia madurinha...
E como não lembrar a teimosia Do tempo, que na imensa serrania Lavrou perfis do Negro em cada monte!?...
E mais outro igual não há sol-poente Que se afoga a correr na serra adentro, E traz perto da praia o horizonte!...
A fotografia aérea da serra das "Cabeças de Velho", em Nampula/Moçambique, fala por que a magnitude do cenário só poderia caber onde a humildade poética não tivesse tamanho.
Por que razão, Amor, já te apartaste, E com afagos meus ficas zangado... Não vês a angústia no rosto cansado, O espectro da seara que ceifaste!?
Não mais quero saber por onde andaste, Mas dar verdade ao sonho, então sonhado... O que hoje em mim acusas de pecado Não te enfadou enquanto só me amaste!
Procuras a miragem que não presta. Agarra o pouco do muito que resta, E vai acontecer do Céu magia...
Mas foges mais a cada hora, eu sinto. No ar pairam amargos de absinto Que me dão medo por telepatia...
De alma e corpo fui tua pelas horas Dos anos...Já esqueceste ou nada importa? Sabendo eu bem que as minhas dores não choras, O teu rodar da chave ouço na porta...
Sou tua ainda, que em meu peito moras, E vejo os olhos teus, lascivos, vindo Olhar-me o corpo, que em beijos devoras, Enquanto a minha flor se vai abrindo...
Chegada a hora de me ir deitar, Espero-te. Não vens. E,ao acordar, Afagos de amor lembro que não digo...
Se não puder esquecer-te, fico louca. Porque a fome que vem à minha boca Não é de pão...,mas a calar me obrigo!